Moro e Greenwald: estratégias de guerra

Noticiou-se à exaustão na segunda-feira passada que o Ministro Moro entrará em licença entre os dias 15 e 19 do corrente mês. Trata-se de um caso atípico, além do que, 5 dias de licença mesmo que esticado por um final de semana, não são lá grande coisa, especialmente para quem anda tão atribulado, por um lado por não estar conseguindo por ordem na casa, não aprovando os seus projetos, nem combatendo as milícias e, por outro lado, tendo que ficar defendendo-se das denúncias feitas a partir do The Intercept e encampadas pela Folha e até pela Veja.

            A maior preocupação de Moro é defender-se e testar a sua popularidade ao lado do presidente. Imagino que jamais um ministro da justiça tenha dado tantas entrevistas em programas que atingem as massas e nem tenha frequentado tantos estádios de futebol. Exemplo mais significativo foi a sua ida ao Maracanã, no domingo passado, para ver o Brasil sagrar-se campeão da Copa América diante da equipe do Peru. Talvez não tenha ido exatamente para assistir ao jogo, mas verificar o seu prestígio diante da torcida. Tentativa frustrada, mesmo estando no meio de pessoas com elevado poder aquisitivo: a renda foi de astronômicos 36 milhões de reais para um público de 70 mil espectadores, o que significa em média 514 reais por ingresso. Com certeza espetáculo proibido para 13 milhões de desempregados e para o trabalhador que ganha um ou dois salários mínimos.  

A respeito dessa licença de Moro já li dezenas de opiniões: há quem diga que Moro está saindo de fininho, outros que vai para os Estados Unidos em busca de instruções, fala-se ainda que se licenciará em busca de asilo político. Não faltam os que dizem que ninguém é de ferro e que o homem precisa de descanso. Pode ser, Moro não descansou nem mesmo quando esteve em férias em Portugal e teve que intervir para obstar o Habeas Corpus que fora concedido a Lula.

Particularmente creio que Moro, com o apoio que tem do presidente e de sua turma, não é de entregar a rapadura, mesmo que isso acabe resultando em uma guerra civil em nosso país. Penso que Baltasar Gracián, em sua “A Arte da Prudência” pode nos indicar o que está ocorrendo, tanto do lado de Moro quanto de Greenwald, quando nos aconselha a “nunca revelar os estratagemas finais de sua arte”:

“Os grandes mestres [ele não diz se do bem ou do mal] são sutis na forma de revelar suas sutilezas. Conservam assim sua superioridade e mestria. Use a arte ao comunicar sua arte. Não esgote as fontes de ensinamentos ou revelação. Assim se preservam a reputação e a dependência. No ensinar, assim como no agradar, deve-se utilizar aquela grande lição: ir alimentando a admiração e elevando a perfeição pouco a pouco. A discrição é grande regra para viver e vencer, principalmente nos cargos mais elevados”.

O mesmo raciocínio serve também para explicar estratégias diversas, lícitas ou ilícitas. Significa dizer, sem antecipar juízo de valor, mas para o bem ou para o mal, ainda haveremos de saber, Moro e Greenwald são bons estrategistas, não se pode negar.

Moro, na operação Lava a Jato, durante cinco anos, alimentou a mídia nacional com conta gotas, de modo a incutir na mentalidade do povo brasileiro algumas crenças que foram de tal forma enraizadas que se torna difícil muda-las, especialmente em relação à prisão do ex-presidente Lula.

Agora The Intercept, liderado por Greenwald [escritor, advogado especialista em direito constitucional e jornalista radicado no Rio de Janeiro desde 2005] está divulgando, aos poucos, uma série de áudios envolvendo Moro, Dallagnon e demais integrantes da Lava a Jato por supostos constrangimentos a testemunhas e prevaricação na prática da justiça.

Moro tem a seu favor o governo Bolsonaro, alguns membros do Supremo Tribunal Federal e parte da mídia. Sua estratégia principal, até o momento, foi por em dúvida as suas declarações, afirmando que podem ter sido deturpadas, e insistindo que essas divulgações são fruto de trabalhos criminosos de hackers. Greenwald, por sua vez já hospedou os arquivos que lhe caíram às mãos em várias partes do mundo e não existe a mínima possibilidade de que novas revelações não sejam divulgadas.

Dois bons estrategistas se digladiando. Da licença de Moro surgirão novas estratégias, Greenwald mudara o foco e aguardará.

Coisa boa não vai dar, penso eu.

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Livros

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

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Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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