O que nos ensinam as manifestações de rua

As manifestações de rua neste maio de 2019, ensejam a sua avaliação, mas também um retrospecto sobre as principais concentrações populares ocorridas em nosso país, para nos situarmos em relação aos seus resultados.

Uma das mais antigas manifestações populares brasileiras talvez seja a “Revolta da Vacina”, ocorrida em 1904, em que a população transformou o Rio de Janeiro em campo de guerra, pois revoltou-se em relação à obrigatoriedade de vacinação.

Em 1907 aconteceu a primeira greve geral no Brasil, com duração de aproximadamente 45 dias. Embora reprimida com violência, em um tempo em que não havia legislação trabalhista, algumas empresas aderiram às 8 horas de trabalho diário.

Dez anos depois, 1917, greve geral em São Paulo. Participaram 45 mil trabalhadores, aparentemente um número pequeno, mas grandiosa se considerarmos que a paralização foi total.

Início dos anos de 1960: na Central do Brasil, 150 mil trabalhadores estiveram presentes para ouvir as propostas de “Reformas de Base” do presidente João Goulart. A reação foi a “Marcha da Família, com Deus, pela liberdade”, que, de certa forma, deu sustentação popular ao golpe de 1964.

1968, passeata dos Cem Mil contra a ditadura militar. Acontecimento marcante foi a batalha entre alunos da USP, defendendo o fim da ditadura e do Mackenzie, defendendo-a.

1984, 1 milhão e meio de pessoas no Anhangabaú e 1 milhão na Candelária, defenderam nas ruas as “Diretas Já”, além de manifestações em todo o Brasil, inclusive em Dourados. A emenda das Diretas, apresentada por Dante de Oliveira, foi derrotada, mas um ano depois a ditadura encerrou o seu ciclo.

1992, manifestações em todo território nacional pelo impeachment de Collor, em São Paulo 750 mil brasileiros foram às ruas.

Em 2013 manifestações populares começaram em São Paulo contra o aumento de 20 centavos no preço do transporte coletivo. Faz lembrar a revolta de 1880, no Rio, em que a população protestou contra o aumento de 20 réis [1 vintém] no preço das passagens. Só que esta ficou restrita ao aumento dos preços e as de 2013 se espalharam por todo o Brasil, num crescendo, culminando com o “fora Dilma” de 2016.

Deixando de mencionar centenas de manifestações populares menores, nem sempre menos importantes, chegamos às de 2019. Em 15 e 26 de maio, respectivamente, como é sabido, duas manifestações antagônicas foram efetivadas, ambas dizendo respeito ao governo Bolsonaro. A primeira, com objetivo de reverter o contingenciamento, em 30% nas verbas das universidades públicas e a segunda, com objetivos difusos, mas, em última análise, em apoio ao governo.

As manifestações em defesa do ensino universitário refletiram na prática o posicionamento de Nelson Mandela, ao afirmar que “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.

            Em relação às manifestações do dia 26, a única certeza é de que existe um núcleo duro em defesa de Bolsonaro, no entanto com tantas propostas diferentes que, de certa maneira, o mostra dividido. Uns defendem a reforma da previdência, numa demonstração inequívoca de que aí teve a mão do empresariado brasileiro; outros defendem a ditadura, prova de que o neofascismo avança no Brasil; alguns defendem o fim da corrupção, como se isso não fosse o que defendem todos os cidadãos de bem e como se não houvesse corrupção no governo atual; não faltaram defesas à volta da monarquia e ataques ao Parlamento e ao Supremo Tribunal. Chocante foi a destruição de uma faixa em defesa da educação, e uma mulher ter que ser escoltada por exibir uma camiseta em defesa de Marielle.

Por enquanto, o que se pode dizer é que as manifestações de 15 de maio assustaram o governo, que já recuou dizendo que exagerou ao chamar os manifestantes de imbecis e já diminuiu um pouco o contingenciamento. Quanto às do dia 26, podemos dizer que não foram fortes o suficiente para que o governo tentasse um autogolpe, ao contrário, indispuseram-no ainda mais com o Supremo e, principalmente, com o Congresso Nacional. 

Amanhã, dia 30, está programada nova manifestação em favor da educação e no dia 14 de junho uma greve geral. Essas ações é que terão impacto mais forte e, associadas à crise governamental, podem ir desde encontrões entre prós e contras e até à renúncia ou impeachment do presidente.

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

A obra ora apresentada é uma coletânea de crônicas publicadas em diversos meios de comunicação no ano de 2010. Falam, sempre com elegância e fluidez, de nossas vidas, de acontecimentos e de possíveis eventos em nosso país, especialmente em nosso município.

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Crônicas: Educação, Cultura e Sociedade

O livro ora apresentado é um apanhado de 104 crônicas, algumas de 1978 e a maioria escrita a partir de 1995 até a presente data. O tema Educação compõe-se de 56 crônicas, outras 16 são relatos descrevendo fábulas ou estórias oriundas da cultura italiana, e os emas Cultura e Sociedade compreendem, cada um, 16 crônicas.

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Crônicas: globalização, neoliberalismo e política

Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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[2009] EDIFICANDO A NOSSA CIDADE EDUCADORA

Esse trabalho tem três objetivos principais, cada qual contemplado em uma das três partes do livro, como se verá adiante. O primeiro é oferecer ao leitor algumas reflexões sobre temas que ocupam o nosso dia-a-dia; o segundo é divulgar os vinte princípios das Cidades Educadoras e, finalmente o terceiro, é tornar público o projeto que nos orienta na transformação de Dourados em uma Cidade Educadora e mostrar os primeiros passos para a operacionalização desse projeto.

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[1998] Até aqui o Laquicho vai bem: os causos de Liberato Leite de Farias

Ao refletir sobre a importância do contador de causos/narrador para a preservação da cultura, percebe-se que cada vez menos pessoas sabem como contar/narrar, com a devida competência, as experiências do cotidiano. Por quê? Para Walter Benjamin, as ações motivadoras das experiências humanas são as mais baixas e aterradoras possíveis em tempos de barbárie; as nossas experiências acabam parecendo pequenas ou insignificantes diante da miséria e da fragmentação humana, numa constatação que extrapola os espaços nacionais.

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[1991] O MOVIMENTO REIVINDICATÓRIO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL: 1978 - 1988

Momentos de grandes mobilizações têm teito do professorado de Mato do Sul a vanguarda do movimento sindicalista deste Estado. Este fato motivou a realização deste trabalho, que teve como proposta inicial analisar criticamente o movimento reivindicatóno do magistério de Mato Grosso do Sul, na perspectiva de revelar-lhe, tanto quanto possível, o perlil de luta, ao longo de sua palpitante trajetória em busca de melhorias salariais, estabilidade empregatícia e melhoria da qualidade do ensino.

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