A microfísica do poder

Como se diz mundo afora: depois que Colombo pôs o ovo em pé, ficou fácil para todos. Mais ou menos assim acontece com a divisão do poder, após Michel Foucaut [“A Microfísica do Poder”] ter desvelado que o poder vem de todas as partes e de todos os lugares, ficou mais fácil compreender que já se foi o tempo em que o poder era tido como algo absoluto, concentrado na esfera pública, exercido pelos reis e depois pelo Estado Moderno. Não, o poder sequer “emana [somente] do povo e em seu nome será exercido”, como consta em nossa Constituição, talvez ao contrário, o poder emana de todos os cantos e é exercido justamente para controlar o comportamento humano, limitar a liberdade do povo e dos próprios governantes.

Foucaut compreendeu que a sociedade se tornou demasiadamente complexa, por isso o poder se disseminou por toda parte. Penso que a partir dessa constatação poderíamos até mesmo substituir a expressão latina, criada por Plauto antes de Cristo e popularizada por Thomas Hobbes de que o homem é o lobo do homem [ Homo homini lupus], por algo mais amplo como “a sociedade é o lobo de si própria”, tamanha a a necessidade dos humanos em vigiar, proteger, dominar, sobrepor-se aos semelhantes.

Pode parecer um contrassenso, a sociedade ser o seu próprio lobo, à medida em que cria todo o tipo de poder que restringe a liberdade dos homens e estes, individualmente, almejarem o poder e alcançando-o julgarem-se poderosos, pequenos ditadores. A maioria não tem noção de como exercer o poder. Não importa se estamos falando do poder do presidente de um clube varzeano ou o de um general.

Em artigo de dezembro de 2012, “como compreender a Microfísica do poder em Foucaut, Edjar Dias de Vasconcelos, asseverou que “as pessoas interiorizam e são obrigadas a cumprir normas sem sentido e que um síndico de prédio, tem tanto poder como tinha um senhor feudal”.

Na verdade, todo mundo parece que tem algum poder, os pais sobre os filhos, os professores sobre os alunos, os promotores do ministério público sobre todos os assuntos e também em relação aos dirigentes públicos. E os dirigentes políticos às vezes ignoram essa divisão do poder e julgam-se superiores, até perceberem que são eles os privados do poder absoluto. José Sarney [vejam de quem me lembrei] percebeu bem essa questão ao afirmar, quando exerceu a presidência da República, que “o presidente pode muito, mas não pode tudo”.

Assim como grande parte das pessoas que assumem algum cargo, quer me parecer que o atual presidente, Jair Bolsonaro, não está preparado para exercer o poder. É grande a sua vocação pela opressão, no entanto em menos de trina dias no poder, aos poucos vai passando por tantas experiências desagradáveis que seria muita falta de inteligência não perceber que o poder é exercido também pela imprensa, pelo capital, pela Justiça e até por milícias. Aprender pela dor é traumático, mas mesmo assim não deixa de ter bom proveito se a pessoa for minimamente inteligente.

De nada adiantam as tentativas de se tentar esconder o sol com a peneira, mais cedo ou mais tarde a mídia ou a história acabam desvelando os mais intrincados engodos. Ainda na última quinta-feira o governo decretou o fim da Lei de Acesso à Informação editada em 2011. A partir de agora, funcionários de segundo e terceiro escalão poderão determinar se um documento é “reservado”, “secreto” ou “ultrassecreto” e esse documento poderá ficar fora do alcance do público durante 25 anos.

Será que o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro tem a ver com esse Decreto?

Lá se foram os tempos em que o juiz de Curitiba e hoje ministro Sérgio Moro, entendia que até mesmo escutas telefônicas não autorizadas podiam ser divulgadas, agora ele tapa os olhos, os ouvidos e a boca.

Penso que talvez seja o caso de nos perguntarmos se Bernard Mondeville tinha razão em 1723 ao escrever “A fábula das Abelhas”, na qual defende que o bem comum não depende da bondade das pessoas, mas ao contrário, o bem e fartura da colmeia estariam garantidos pela ganância, inveja, vaidade e orgulho de cada uma das abelhas.

É Foucaut, o poder de fato está disseminado por todos os cantos, no entanto muitos dos quais o assumem parecem estar na colmeia de Mondeville. Como dizia a minha avó: quem nunca comeu melado quando come se lambuza.

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

A obra ora apresentada é uma coletânea de crônicas publicadas em diversos meios de comunicação no ano de 2010. Falam, sempre com elegância e fluidez, de nossas vidas, de acontecimentos e de possíveis eventos em nosso país, especialmente em nosso município.

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Crônicas: Educação, Cultura e Sociedade

O livro ora apresentado é um apanhado de 104 crônicas, algumas de 1978 e a maioria escrita a partir de 1995 até a presente data. O tema Educação compõe-se de 56 crônicas, outras 16 são relatos descrevendo fábulas ou estórias oriundas da cultura italiana, e os emas Cultura e Sociedade compreendem, cada um, 16 crônicas.

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Crônicas: globalização, neoliberalismo e política

Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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[2009] EDIFICANDO A NOSSA CIDADE EDUCADORA

Esse trabalho tem três objetivos principais, cada qual contemplado em uma das três partes do livro, como se verá adiante. O primeiro é oferecer ao leitor algumas reflexões sobre temas que ocupam o nosso dia-a-dia; o segundo é divulgar os vinte princípios das Cidades Educadoras e, finalmente o terceiro, é tornar público o projeto que nos orienta na transformação de Dourados em uma Cidade Educadora e mostrar os primeiros passos para a operacionalização desse projeto.

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[1998] Até aqui o Laquicho vai bem: os causos de Liberato Leite de Farias

Ao refletir sobre a importância do contador de causos/narrador para a preservação da cultura, percebe-se que cada vez menos pessoas sabem como contar/narrar, com a devida competência, as experiências do cotidiano. Por quê? Para Walter Benjamin, as ações motivadoras das experiências humanas são as mais baixas e aterradoras possíveis em tempos de barbárie; as nossas experiências acabam parecendo pequenas ou insignificantes diante da miséria e da fragmentação humana, numa constatação que extrapola os espaços nacionais.

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[1991] O MOVIMENTO REIVINDICATÓRIO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL: 1978 - 1988

Momentos de grandes mobilizações têm teito do professorado de Mato do Sul a vanguarda do movimento sindicalista deste Estado. Este fato motivou a realização deste trabalho, que teve como proposta inicial analisar criticamente o movimento reivindicatóno do magistério de Mato Grosso do Sul, na perspectiva de revelar-lhe, tanto quanto possível, o perlil de luta, ao longo de sua palpitante trajetória em busca de melhorias salariais, estabilidade empregatícia e melhoria da qualidade do ensino.

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