Vida de patrão é horrível, boa é a de burro valente

Nessa semana que se finda tive a alegria de receber alguns familiares, inclusive meu único irmão. Nem redes sociais, nem TV, só bom papo e boas lembranças. Falando em lembranças, não é que ele elogiou a minha “boa memória”? Ora, disse-lhe eu, se não fosse o Google a minha memória já deveria estar reduzida à metade, tanto é que nem me lembro se essa história do Zé Kubum que vou narrar, me foi contada, se é velha ou nova, falsa ou verdadeira. Mas vá lá, caro irmão, eu conto-lhe e você ajuda-me falando se já ouviu falar dessa história.

Zé Kubum trabalhava numa fazendola de criação de gado. Morava em uma casa cem metros abaixo da sede que, embora maior e mais confortável, não era de alvenaria e sim de madeira, igual a moradia do Zé.

Naquele dia a esposa de Zé Kubum pedira uma carona no ônibus escolar, único meio de transporte coletivo que passava naquele local, para fazer compras na cidade, portanto ele estava só naquele mundão. Por isso até se alegrou quando escutou o ronco de uma condução chegando e verificou que era o patrão que chegara. Só estranhou um pouco o horário, pois já devia ser por volta de dez e meia da manhã, coisa incomum, o patrão era madrugador. De qualquer forma Zé voltou para a cozinha, acabara de “queimar a panela”, como dizia ele quando fazia a própria comida. Enchera o prato, parecia montanha, e ainda por cima botou dois ovos fritos, aos quais chamava por “zoião”.

Mas, não foi puxar a cadeira para sentar-se que escutou o patrão chamando-o. Virou a panela sobre o prato para cobrir a comida e saiu a passos largos. Bom dia, bom dia. Zé Kubum foi logo escutando que ser patrão no brasil é dureza. Onde já se viu, disse-lhe o patrão, a gente paga funcionário, paga vacina, paga imposto, contribui com a riqueza desse país e as estradas? Não tem estrada, cortei o pneu em uma pedra e foi uma luta para trocar. Mas deixa prá lá, não há de ser nada Zé, você me pega o petiço, arreia e traz para as crianças se divertirem um pouco, mesmo porque na cidade Zé, a vida é dura, não se tem mais segurança. Tá difícil, se pudesse morava aqui nesse sossego, mas fazer o que?

Zé Kubum  pegou o cavalinho que não estava tão perto, trouxe-o para o galpão e enquanto o arreava ia conversando com a sua própria barriga. Eita, bichinha, dizia ele, parece que você tá querendo encostar nas costas? Pare de roncar que vamos dar um jeito nisso.

O casal tinha se levantado às quatro da manhã, o desjejum fora a sobra da janta, que requentaram para forrarem o estomago. Zé foi acompanhar a esposa até a porteira da reta para que pegasse o ônibus escolar. Depois foi cuidar das obrigações, que não eram poucas. Tratar porcos, galinhas, curar a bicheira da vaca velha, fazer o rodeio do gado para ver se tudo estava em ordem. Enfim, quando ia almoçar coincidiu de ter que pegar o petiço.

 Mais assim é a vida. Levou o cavalo até a casa grande e o patrão mandou amarrá-lo na sombra, pois as crianças só iriam montá-lo mais tarde, quando o sol não estivesse tão ardido.

Zé Kubum foi para casa coçando a cabeça, como quem pensasse se não poderia ter almoçado antes e depois arreado o cavalinho. Mas o patrão, segundo ele, tinha razão, as crianças esquentariam até os miolos com aquele sol. Então voltou para a sua cozinha, botou a comida na panela e requentou-a fazendo um remexido que lhe caiu muito bem. Foi para a sala, esticou o corpo na espreguiçadeira e tirou um cochilo, não mais de dez minutos. Acordou sobressaltado lembrando que já passara do meio dia e que o ônibus escolar logo a deixaria na porteira com as compras e ele teria que ajudá-la.

Dito e feito, mal chegou e o ônibus encostou. Zé Kubum deu o seu bom dia, agradeceu ao motorista, pegou o fardo de cesta básica, botou nas costas e, feliz da vida por ter segurança alimentar por mais um mês, desceu para a casa com a mulher ao lado contando coisas da cidade.

Ao passarem em frente da sede, Zé Kubum parou para ouvir o patrão dizer-lhe que podia desencilhar o cavalinho porque as crianças não queriam mais andar. 

“Eita mulher, disse-lhe Zé, bom mesmo é que o petiço não tem pneus”. E, sorrindo, contou-lhe que o patrão chegara tarde porque tivera que trocar o pneu do carro. E concluiu, “vida de patrão é horrível”, boa é a do burro valente que carrega a carga e não sente.

Meu irmão nunca ouvira essa história.

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