Crônica de um homem que não tinha sangue

Bepi Bipolar, o personagem que ora apresenta-se no polo do senso, ora do nonsense, havia sumido de minhas crônicas. Mas não é que nesses dias ele me aparece sentado no banco da praça de sua cidade, a Cafundó, ao lado de seu inseparável amigo Tino Sonso, contando uma história de arrepiar o cabelo? Sei lá em que polo estava, mas a sua história me pareceu incrível. E olha que conheço algumas histórias admiráveis. Sei, por exemplo, de idosos que envelhecem todo o corpo, menos os músculos: pessoas com mais de 80 anos podem correr como se fossem jovens, arremessar dardos ou peso à distância, sem sentirem a menor fadiga. E aquela família italiana que não sente dor alguma? Parece coisa de outro mundo. Em um jogo de bola um deles quebrou o pé e só percebeu muito depois, quando o osso já tinha colado e ficado meio torto. Mas essas coisas todas são insignificantes diante da história do homem que não tinha sangue, contada por Bepi Bipolar.

- Pois é Tino, começou Bepi, estava eu trabalhando de enfermeiro num grande hospital, quando me aconteceu de ver uma coisa de arrepiar os cabelos. Um homem com os seus quarenta e cinco anos, talvez um pouco mais, deu entrada no hospital. Era a sua primeira vez. Nunca tinha consultado um médico, tomado um comprimido ou sofrido sequer um arranhão. Como ele estava muito pálido, a primeira providência da equipe médica foi determinar uma coleta de sangue para verificar se se tratava de algum tipo de anima profunda. Tino de Deus, continuou Bepi, a enfermeira pegou a veia, aspirou a seringa e cadê o sangue? O homem não tinha sangue. Na seringa apareceram apenas algumas partículas, como se fossem pedacinhos de uma linha fina, amarelas e azuis, que se movimentaram freneticamente durante alguns instantes e desapareceram.

Tino Sonso, boquiaberto e olhos arregalados ouvia com atenção.

- Corri para o corredor e deu tempo de chamar a equipe médica de volta. A enfermeira fez novamente o procedimento para retirar o sangue, mas apenas algumas partículas agitadas vieram para a seringa e logo desapareceram. Toda a equipe entreolhou-se atônita. E o homem, ali, deitado, pálido, parecendo uma folha de papel em branco.

- Mas eis que a equipe médica é chamada para uma urgência, e outra, e mais outra. Permaneci sozinho com o paciente, diz Bepi, mas logo chegaram os seus pais, não aparentando emoção alguma. Conversa vai, fiquei sabendo que quando recém-casados o pai estava utilizando um aparelho ligado em 220 volts e, sem querer, pegou duas fases desencapadas. Pés descalços, deu terra, e ele ficou grudado, tremendo o corpo todo; a esposa inexperiente tentou puxá-lo e ficou grudada também. Num átimo, a empregada tirou o fio da tomada, salvando o casal. Depois desse lamentável episódio é que o homem pálido, estendido na cama foi gerado.

- Seria por isso que não tinha sangue? Acho que nem os pais nem o próprio homem sem sangue sabiam que pelas suas veias corriam pequenas faíscas que bombeadas pelo coração, circulavam pelo seu corpo dando-lhe vida.

- Sei que compete aos médicos, mas não resisti, apanhei um aparelho para auscultar os seus batimentos cardíacos. Para minha surpresa o coração batia forte, mas tinha um som diferente, metálico.

- Fiquei novamente sozinho com o paciente, disse Bepi Bipolar ao amigo Tino. Então o homem sofreu ligeira convulsão e começou a contar histórias de sua vida. Pensei que estivesse acometido de Alzheimer ou algo semelhante. E ele sorria e contava que quando criança as coisas que ele mais gostava era jogar sal nas costas de sapos, amarrar latas vazias de sardinha nos rabos dos gatos e arrancar as cabeças dos formigões. Disse que a sua primeira namorada, o amava tanto que mesmo quando ele queimava as costas de suas mãos com a ponta do cigarro em brasa ela suportava.

Dos olhos de Tino Sonso correram duas lágrimas, mas Bepi nem reparou e continuou a contar a fala delirante do homem sem sangue: me arrepiava ouvi-lo, disse Bepi, mas ele sorria, sorria e continuava a contar. Com quinze anos estuprou uma menina, com dezessete espancou quase até a morte um colega gay, aos trinta já tinha filhos aos quais ensinava práticas de sadismo...

- Eu estava tão atento aos delírios que nem sequer lembrei-me de ligar o celular para gravar essa história de perversidade. Aguardava ansioso para saber o que viria depois, mas de repente o homem parou, levantou a cabeça e emitiu um som parecido com o uivo de um lobo e morreu. Pensei que deveria ser submetido a uma autópsia, a um estudo de caso, mas entraram os maqueiros e o levaram. Fiquei com uma única certeza: as partículas que circulavam pelas suas veias e que lhe sustentavam a vida eram pura e simplesmente partículas de ódio.

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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