Desejos desvanecem conforme o regime político

Quando o sono perde a hora de chegar, abro “As cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino, e sempre encontro algo maravilhosamente novo. Ainda ontem reli “as cidades e o desejo”. Trata-se de Anastácia, sobre a qual se poderia “louvar a carne dos faisões dourados, cozidos na lenha seca de cerejeira”, ou as belas mulheres, mas, no entanto, sobre essa cidade o que mais impressiona é que nela os desejos se manifestam espontaneamente e nenhum é desperdiçado. Anastácia é, contudo, uma cidade enganosa, “se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas, ônix, crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo”.

Anastácia, aliás como todas as cidades retratadas por Calvino, não parece ser invisível, imaginada, mas sim que está contida em quaisquer cidades do Mundo. Todo o dia os habitantes de Tóquio, Londres, ou Dourados, quando acordamos somos cercados por desejos, alguns corriqueiros, outros de longo prazo. O balconista sai de casa com o desejo de fazer boas vendas e ver a sua comissão aumentar; o professor de ensinar o que sabe; o médico de curar o paciente; o advogado de vencer a causa. Desejos, apenas desejos.

A maior parte da população, os trabalhadores, têm também os seus desejos: especialmente de um futuro digno, então acordam com o sol nascendo, tomam o ônibus para o trabalho, dependuram-se, porque bancos já não encontram, cochilam mesmo em pé e duas horas depois estão apertando parafusos, pintando paredes, varrendo as calçadas, coletando o lixo. Almoçam no local do trabalho, seja no restaurante da empresa, seja debaixo da árvore, segurando com uma das mãos o marmitex e com a outra o garfo.

A sirene apita, é hora de correr para o ponto de ônibus, do metrô talvez, e lá se vão mais duas horas para voltar para casa. A janta requentada parece manjar dos deuses, as crianças já dormiram, mas dá tempo ainda para ver o jornal e a novela da TV.

Amanhã será novo dia, renovação dos desejos. Desejo de ver as crianças crescerem, estudarem, serem alguém na vida. Valerá o sacrifício. E as crianças de fato crescem, concluem o ensino fundamental, desejam ser médicos, advogados, engenheiros, administradores, professores, desejam subir alguns degraus na escala social, desejam ajudar os pais, já idosos, e retribuir um pouco do tanto que fizeram por eles.

Nesse momento chega a hora da verdade. Os desejos desses jovens, filhos de trabalhadores, encontram-se com a realidade da cidade e do país em que vivem. E a realidade de cada país tem a ver com a forma de governo praticada. Mesmo nos regimes capitalistas, que atualmente estão implantados na maioria dos países do Mundo existem diferenças, pois o capitalismo pode manifestar-se maneiras diferentes. O país onde impera a social democracia, a exemplo da Suíça, Suécia, Islândia, Noruega, os desejos desses jovens têm praticamente cem por cento de possibilidades de se realizarem. França, Inglaterra, Alemanha, apesar de terem sido atingidas pela onda neoliberal, voltaram ao tradicional liberalismo econômico que, apesar de ser também uma forma de exploração do homem pelo homem, não é tão selvagem e permite aos jovens acesso gratuito às universidades. Já em países onde impera o neoliberalismo as chances desses jovens realizarem os seus desejos são mínimas.

No Brasil seis meses separam os jovens, filhos da classe trabalhadora, da realização de seus desejos. Esquerda ou Direita, quem tomará posse em 1º de janeiro de 2019?

A Direita, representada especialmente pelo PSDB, DEM, parte do MDB e PSC, tem como projeto para o país a privatização das empresas nacionais, a terceirização do ensino médio, sucateamento das universidades públicas para abrir espaço para as redes privadas de ensino superior e a precarização dos direitos trabalhistas. Se os representantes desses partidos forem eleitos, por via de consequência os desejos dos jovens esvanecerão.

O projeto de país para a Esquerda, representada especialmente pelo PT, PCdoB, PSOL, partes do PSB e PDT, é de preservação do patrimônio nacional, federalização do ensino médio, expansão das universidades, melhor distribuição da renda e da riqueza, o que significa dizer que os desejos dos jovens terão maiores possibilidades de se realizarem.

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

A obra ora apresentada é uma coletânea de crônicas publicadas em diversos meios de comunicação no ano de 2010. Falam, sempre com elegância e fluidez, de nossas vidas, de acontecimentos e de possíveis eventos em nosso país, especialmente em nosso município.

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Crônicas: Educação, Cultura e Sociedade

O livro ora apresentado é um apanhado de 104 crônicas, algumas de 1978 e a maioria escrita a partir de 1995 até a presente data. O tema Educação compõe-se de 56 crônicas, outras 16 são relatos descrevendo fábulas ou estórias oriundas da cultura italiana, e os emas Cultura e Sociedade compreendem, cada um, 16 crônicas.

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Crônicas: globalização, neoliberalismo e política

Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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[2009] EDIFICANDO A NOSSA CIDADE EDUCADORA

Esse trabalho tem três objetivos principais, cada qual contemplado em uma das três partes do livro, como se verá adiante. O primeiro é oferecer ao leitor algumas reflexões sobre temas que ocupam o nosso dia-a-dia; o segundo é divulgar os vinte princípios das Cidades Educadoras e, finalmente o terceiro, é tornar público o projeto que nos orienta na transformação de Dourados em uma Cidade Educadora e mostrar os primeiros passos para a operacionalização desse projeto.

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[1998] Até aqui o Laquicho vai bem: os causos de Liberato Leite de Farias

Ao refletir sobre a importância do contador de causos/narrador para a preservação da cultura, percebe-se que cada vez menos pessoas sabem como contar/narrar, com a devida competência, as experiências do cotidiano. Por quê? Para Walter Benjamin, as ações motivadoras das experiências humanas são as mais baixas e aterradoras possíveis em tempos de barbárie; as nossas experiências acabam parecendo pequenas ou insignificantes diante da miséria e da fragmentação humana, numa constatação que extrapola os espaços nacionais.

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[1991] O MOVIMENTO REIVINDICATÓRIO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL: 1978 - 1988

Momentos de grandes mobilizações têm teito do professorado de Mato do Sul a vanguarda do movimento sindicalista deste Estado. Este fato motivou a realização deste trabalho, que teve como proposta inicial analisar criticamente o movimento reivindicatóno do magistério de Mato Grosso do Sul, na perspectiva de revelar-lhe, tanto quanto possível, o perlil de luta, ao longo de sua palpitante trajetória em busca de melhorias salariais, estabilidade empregatícia e melhoria da qualidade do ensino.

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