O que será o amanhã?

Não encontro em meu quartinho de estudos o livro “Brasil ano 2000”, para certificar-me se foi nele em que baseei uma série de palestras em escolas públicas estaduais, desenvolvidas em projeto de extensão universitária do CEUD/UFMS [hoje UFGD). Se minha memória não me trair, esse livro irradiava o pessimismo pós 1968, quando a ditadura militar baixou em dezembro o Ato Institucional número 5 [o mais duro golpe dado à democracia brasileira pelo regime militar]. Eu procurava mostrar, em 1997, doze anos após o fim da ditadura, que aquele pessimismo poderia ser superado pela redemocratização. Mas que nada! O pessimismo experimentado pelos jovens do ensino médio era forte, embora não fosse oriundo da mesma fonte, ou seja, já não era a repressão que causava o pessimismo, mas a falta de perspectivas para o futuro. Vivíamos o segundo mandato do governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso: os empregos rareavam, o ensino médio não entusiasmava, as universidades públicas estavam sendo sucateadas e o patrimônio nacional privatizado a preços irrisórios.

O meu otimismo era inútil diante daquela realidade mediata. Os jovens brasileiros, com os quais eu dialogava, mesmo próximos de um novo milênio [que normalmente representa ser de renovação e de esperança] enxergavam o futuro como se já estivessem derrotados pela vida, agora não mais pelo medo da tortura, mas pela impossibilidade de projetarem um futuro melhor, por não enxergarem caminhos que os conduzissem a realização de seus sonhos.

Decorridos pouco mais de 20 anos desde que testemunhei esse pessimismo, eis que novamente os jovens brasileiros se desalentam. Agora não somente visto pelo meu juízo de valor, mas com pesquisa realizada pelo Instituto Data Folha: se pudessem, 62% dos jovens brasileiros deixariam o país. Dado alarmante, consequências inimagináveis.

Outra pesquisa, realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE], amplamente divulgada pela grande imprensa, esclarece que uma família brasileira pobre levaria nove gerações para alcançar renda média, o que significa dizer que no Brasil a mobilidade social é praticamente inexistente. Radicalizando, o nosso país não é necessariamente uma sociedade de classes, onde a mobilidade é mais constante e aproxima-se de uma sociedade de castas, onde a mobilidade não existe.

Essas circunstâncias levam o povo a interiorizar, mesmo que inconscientemente, a inutilidade de quaisquer esforços para melhorar a sua vida. E eu fico a matutar sobre o que será o nosso amanhã. Qual a teoria para explicar esse efeito que leva ao desalento e a desesperança.

Existe na história uma teoria denominada “imaginário social” que nos leva a compreender como é que o povo de um determinado país, ou de uma determinada região, incorpora consciente e/ou inconscientemente ideologias, símbolos e memórias que originam a sua maneira de ser e agir. Difere um tanto daquilo que Jung chamou de inconsciente coletivo, porque o imaginário social pode ser modificado em virtude de novos comportamentos.

Assim é que, por exemplo, havendo a aplicação de uma ordem econômica que pregue a meritocracia, o desempenho individual e a organização de um estado mínimo, ou seja, uma política neoliberal, por muito tempo, a percepção do povo, “o imaginário social” gerado é de desesperança, o que leva a consequências perversas, como a indolência, a procura de tirar proveito, mesmo que de pequenas coisas [já que não pode competir com a classe dominante], e em nível mais profundo à marginalização.

Ao contrário do neoliberalismo, a política do estado de bem-estar social [aquela idealizada por Keynes e que tirou os Estados Unidos da crise de 1929], se levada a termo durante bom espaço de tempo, restabelece no povo a esperança.  E é simples de se entender, quando aplicada essa política a economia se recupera, porque os governos sociais democratas aplicam em infraestrutura, geram empregos, criam mecanismos de estabilidade social.

No Brasil, após a queda da ditadura, Sarney, Collor, Itamar e, principalmente FHC, e agora Temer, aplicaram a política neoliberal, apenas nos governos petistas de Lula e Dilma foi aplicada a política de bem-estar social.

O que será o amanhã? Havendo eleições democráticas e consciência política, será como o povo quiser.

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

A obra ora apresentada é uma coletânea de crônicas publicadas em diversos meios de comunicação no ano de 2010. Falam, sempre com elegância e fluidez, de nossas vidas, de acontecimentos e de possíveis eventos em nosso país, especialmente em nosso município.

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Crônicas: Educação, Cultura e Sociedade

O livro ora apresentado é um apanhado de 104 crônicas, algumas de 1978 e a maioria escrita a partir de 1995 até a presente data. O tema Educação compõe-se de 56 crônicas, outras 16 são relatos descrevendo fábulas ou estórias oriundas da cultura italiana, e os emas Cultura e Sociedade compreendem, cada um, 16 crônicas.

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Crônicas: globalização, neoliberalismo e política

Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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[2009] EDIFICANDO A NOSSA CIDADE EDUCADORA

Esse trabalho tem três objetivos principais, cada qual contemplado em uma das três partes do livro, como se verá adiante. O primeiro é oferecer ao leitor algumas reflexões sobre temas que ocupam o nosso dia-a-dia; o segundo é divulgar os vinte princípios das Cidades Educadoras e, finalmente o terceiro, é tornar público o projeto que nos orienta na transformação de Dourados em uma Cidade Educadora e mostrar os primeiros passos para a operacionalização desse projeto.

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[1998] Até aqui o Laquicho vai bem: os causos de Liberato Leite de Farias

Ao refletir sobre a importância do contador de causos/narrador para a preservação da cultura, percebe-se que cada vez menos pessoas sabem como contar/narrar, com a devida competência, as experiências do cotidiano. Por quê? Para Walter Benjamin, as ações motivadoras das experiências humanas são as mais baixas e aterradoras possíveis em tempos de barbárie; as nossas experiências acabam parecendo pequenas ou insignificantes diante da miséria e da fragmentação humana, numa constatação que extrapola os espaços nacionais.

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[1991] O MOVIMENTO REIVINDICATÓRIO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL: 1978 - 1988

Momentos de grandes mobilizações têm teito do professorado de Mato do Sul a vanguarda do movimento sindicalista deste Estado. Este fato motivou a realização deste trabalho, que teve como proposta inicial analisar criticamente o movimento reivindicatóno do magistério de Mato Grosso do Sul, na perspectiva de revelar-lhe, tanto quanto possível, o perlil de luta, ao longo de sua palpitante trajetória em busca de melhorias salariais, estabilidade empregatícia e melhoria da qualidade do ensino.

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