Eleições democráticas ou para o Nemo?

Carlos Drummond de Andrade não sabia da existência do ponto Nemo. Quando escreveu “E agora José” não encontrou um lugar para mandar um povo desesperançado, sem rumo definido, sem esperança: “E agora, José? // A festa acabou // A luz apagou // O povo sumiu [...] Você marcha José, José para onde?

Com o perdão da memória de Drummond e usando o que se chama de “licença poética”, permito-me substituir a clássica pergunta “E agora José” por “E agora Brasil”? Com a chave na mão // Quer abrir a porta // Não existe porta // Quer morrer no mar // Mas o mar secou // Quer ir para Minas // Minas não há mais // “Brasil”, e agora?

E agora Brasil? Alguns poderão perguntar, o que vamos fazer com Temer e sua quadrilha? E com Fernando Henrique e o seu time de vendilhões do patrimônio nacional? Que vamos fazer de Moro e a sua Lava a Jato, aliada da Globo? Que fazer com as desobediências constitucionais, que criaram o “domínio do fato”, na cabeça de Joaquim Barbosa? Fazer o que, com a substituição de provas por convicções, como asseverou Deltan Dallagnol? E que fazer com o desrespeito da Constituição por quem deveria ser o seu guardião, o STF, representado especialmente por Rosa Weber, que criou o “princípio da colegialidade”? Ou seja, uma decisão pela maioria do STF, mesmo que equivocada, segundo ela, vale mais que aquilo determinado pela Constituição.

Mandá-los para Nemo? Não me refiro ao capitão Nemo, das Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, mas ao ponto Nemo, que em latim significa ninguém. O ponto Nemo é o lugar mais afastado de qualquer local em que haja terra não submersa. Fica localizado no Oceano Pacífico e dista cerca de dois mil e setecentos quilômetros da ilha mais próxima [48°52'6"S 123°23'6" W]. Nemo é tão distante de qualquer coisa, que para lá é dirigido o lixo espacial, quando ainda se tem controle sobre ele, como por exemplo, satélites e até mesmo naves espaciais desarticuladas.

Se conhecesse o ponto Nemo Drummond poderia mandar José para lá, mas José sequer tinha teogonia [conjunto de divindades] para socorre-lo. Mas, como sempre digo, resta a esperança. Deus não é brasileiro? E o papa não é o nosso vizinho, argentino?

Então, deixemos de lado os lalaus, aécios, os armamentistas, os entreguistas, golpistas, chauvinistas e os arrivistas. E não é pelo medo de que se os mandássemos para Nemo organizariam por lá um inferno ainda mais terrível que o de Dante, mas sim por piedade cristã. Apesar de que muitas vezes, diante das injustiças e dos desmandos, a raiva aflora em nossas mentes podendo até se transformar em ódio se não agirmos rapidamente para sufocar essas manifestações. Só o amor constrói, dizem cristão; só o amor dissipa o ódio, dizem os budistas.

Mas, que fazer diante da realidade nefasta em que vivemos? Quando haveremos de despirmo-nos do luto que estamos trajando desde 31 de agosto de 2016?

A minha expectativa é a de que o povo brasileiro espera com paciência pelas eleições de 7 de outubro. Não posso acreditar que estejamos ainda anestesiados. Com eleições livres haveremos de decidir a quem devemos entregar o comando de nossa nação.

Eleições livres significam eleições sem interferência daqueles que vestem o verde oliva do exército, a toga negra da magistratura ou, ainda, daqueles que se utilizam das ondas sonoras e imagéticas para transmissões despudoradas das mídias que atuam como porta-vozes da elite reacionária que temos.

Eleições livres passam pela liberdade de Lula participar do pleito, expor seus planos e não ir também para Nemo. Eleições livres significam permitir que Bolsonaro participe de debates e apresente as suas ideias; que Alkmin demonstre se o que fez por São Paulo é bom para o Brasil. Eleições livres é ouvir Ciro Gomes, é deixar que Boulos e Manuela D’Avila, dentre outros, tenham espaço para que exponham os seus objetivos.

Eleições livres deverão significar para nós brasileiros a esperança, não de uma simples reforma, mas de uma revolução; não a revolução da espingarda, mas a revolução constitucional, a revolução educacional e cultural, a revolução que nos traga de volta a soberania e nos leve a ser um país mais justo, mais fraterno e mais igual. Que 7 de outubro chegue logo e com esses auspícios. Não desejo que o ódio vença a esperança e nos leve à guerra civil.

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

A obra ora apresentada é uma coletânea de crônicas publicadas em diversos meios de comunicação no ano de 2010. Falam, sempre com elegância e fluidez, de nossas vidas, de acontecimentos e de possíveis eventos em nosso país, especialmente em nosso município.

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Crônicas: Educação, Cultura e Sociedade

O livro ora apresentado é um apanhado de 104 crônicas, algumas de 1978 e a maioria escrita a partir de 1995 até a presente data. O tema Educação compõe-se de 56 crônicas, outras 16 são relatos descrevendo fábulas ou estórias oriundas da cultura italiana, e os emas Cultura e Sociedade compreendem, cada um, 16 crônicas.

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Crônicas: globalização, neoliberalismo e política

Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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[2009] EDIFICANDO A NOSSA CIDADE EDUCADORA

Esse trabalho tem três objetivos principais, cada qual contemplado em uma das três partes do livro, como se verá adiante. O primeiro é oferecer ao leitor algumas reflexões sobre temas que ocupam o nosso dia-a-dia; o segundo é divulgar os vinte princípios das Cidades Educadoras e, finalmente o terceiro, é tornar público o projeto que nos orienta na transformação de Dourados em uma Cidade Educadora e mostrar os primeiros passos para a operacionalização desse projeto.

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[1998] Até aqui o Laquicho vai bem: os causos de Liberato Leite de Farias

Ao refletir sobre a importância do contador de causos/narrador para a preservação da cultura, percebe-se que cada vez menos pessoas sabem como contar/narrar, com a devida competência, as experiências do cotidiano. Por quê? Para Walter Benjamin, as ações motivadoras das experiências humanas são as mais baixas e aterradoras possíveis em tempos de barbárie; as nossas experiências acabam parecendo pequenas ou insignificantes diante da miséria e da fragmentação humana, numa constatação que extrapola os espaços nacionais.

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[1991] O MOVIMENTO REIVINDICATÓRIO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL: 1978 - 1988

Momentos de grandes mobilizações têm teito do professorado de Mato do Sul a vanguarda do movimento sindicalista deste Estado. Este fato motivou a realização deste trabalho, que teve como proposta inicial analisar criticamente o movimento reivindicatóno do magistério de Mato Grosso do Sul, na perspectiva de revelar-lhe, tanto quanto possível, o perlil de luta, ao longo de sua palpitante trajetória em busca de melhorias salariais, estabilidade empregatícia e melhoria da qualidade do ensino.

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