Travessuras e punições de jovens ginasianos

Ginásio tem origem grega, gymnasium, um local onde se praticava exercícios. No Brasil passou a ser o período escolar intermediário entre o ensino fundamental e o médio. Equivaleria hoje aos estudos de quinta a oitava séries.

Nem sei como cabiam tantas disciplinas no currículo, estudávamos português, história, geografia, matemática, artes manuais, música, latim, francês, inglês, uma infinidade. Nas pequenas e médias cidades ainda não existiam escolas particulares, então, na escola pública, conviviam os filhos do prefeito, do farmacêutico, do bancário, com os filhos dos pedreiros, mecânicos, comerciários, enfim, a diversidade social se manifestava nas relações educacionais. No início de meus estudos ginasianos ainda havia separação de gênero, classes masculinas e femininas, mas eu mesmo vivi a transformação quando passamos a estudar em classes mistas. Foi quando os meninos nos tornarmos menos truculentos, mais respeitosos com os colegas e com os professores.

Professores àquela época, se mulheres, usavam salto alto e trajavam-se com distinta elegância, sendo homens não dispensavam o paletó. Os salários deveriam ser melhores.

O “domínio” das classes pelos professores nem sempre tinha o sucesso alcançado pelo nosso professor de inglês, que era de nacionalidade inglesa, William Tamerik. Lembro-me de um episódio que poderia ser digno de uma suspensão de toda a classe e que se transformou em uma aula de sabedoria. Um aluno depositou sobre a cátedra [naquele tempo os professores tinham uma cátedra, não apenas uma mesa] um feixe de capim. Ah, vocês mais jovens imaginavam que oferecer capim era uma indecorosa falta de civilidade de nossos dias, pois sabe-se lá quem, nos anos cinquenta já havia oferecido capim, insinuando que o professor fosse um burro. Pois bem, o velho mestre, entrou em sua cátedra, tranquilamente fez a chamada e, a seguir, com a sua fleuma britânica, disse apenas “epa, epa, quem esqueceu o lanche aqui pode vir busca-lo”, abriu o livro e deu a sua aula como se nada tivesse ocorrido.

Mas nem todos os professores tinham a postura do nosso mestre inglês. Alguns, por uma simples bolinha de papel, agitavam a escola. E se alguém pensar que bolinha de papel só causou alvoroço, como no caso daquela que atingiu a careca de José Serra, engana-se. Por uma bolinha de papel ou por travessuras outras, às vezes era chamado o inspetor de alunos e até mesmo o diretor da escola.

Penso que a nossa maior travessura àquela época era fumar escondidos, no pátio, durante o intervalo. Menelau [não o legendário rei de Esparta], mas o filho do dono de um dos melhores bares da cidade, levava cigarros e quem não fumasse era “mariquinha”. Ora, vejam como os tempos mudam. Fumar era comum entre os meninos, mas não conhecíamos a maconha àquela época.

Mas, eu dizia que nem sempre os professores solucionavam os problemas de malcriadezes e as soluções eram diversas. Quando vinha o inspetor, algumas vezes o responsável pela transgressão levantava-se, assumia o erro, ia para a diretoria acertar-se com o diretor. Certa vez o inspetor se equivocou com a nossa classe e foi injusto e grosseiro conosco. Levantou-se um menino de quinze anos e, corajosamente, fez a nossa defesa. Chama-se Edson Nori, morava em Itápolis e faleceu tragicamente por afogamento quando nadava em um açude próximo ao Instituto de Educação Valentim Gentil. Poderia ter se transformado em um grande líder, mas é assim, alguns jovens promissores perdem a vida por fatalidade, outros por falta de oportunidades, outros ainda porque regimes autoritários cassam os seus direitos.

Mas, e quando ninguém se acusava do erro cometido? Então vinha o diretor. No nosso caso chamava-se Ferrari. Quem foi? Quem não foi? Quem fez? Quem não fez?

Silêncio total. E o diretor ia embrabecendo. Eu vou suspender a classe inteira... e o silêncio continuava. Ele andava de um lado para o outro, insistia, perdia a paciência conosco, mas naqueles tempos era feio ser “dedo duro”. Não me recordo o motivo, mas um dia, lembro-me bem, levamos uma suspensão de três dias, a classe toda.

E hoje, quando nos lembramos do dia em que Tiradentes [21/04/1792] foi enforcado, esquartejado e teve seu corpo salgado e dependurado pelos postes, parece-me que os delatores, mentirosos ou não, são mais importantes. Os Silvério dos Reis ganham mais importância.

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