Ideias confluentes

Copiar a ideia de outrem é plagio, no entanto é possível termos a mesma ideia de alguém, mesmo que separados por um oceano. Da mesma forma, uma ideia nossa pode se repetir alhures, por alguém que desconhece a nossa existência. As ideias podem ser confluentes, como dois rios que fluem para um mesmo ponto. Isso é possível porque o ser humano reflete sobre temas comuns, temas que nos afligem, problemas que merecem atenção de muitos por afetarem a todos. Não somente problemas mediatos, existem reflexões que nos levam a idealizar o futuro.

As ideias semelhantes, que surgem de várias cabeças, para a busca de uma mesma solução, ou que se prestam ao planejamento do futuro, são as que costumam dar certo.

No final dos anos de 1970 e início dos de 80, quando comecei a divulgar o sonho de implantar a UFGD, dezenas, centenas, milhares de pessoas tiveram a mesma ideia e, por isso todo o trabalho em torno desse objetivo acabou se tornando realidade.

O mesmo não aconteceu com a ideia do trenzinho universitário. Quando setenta e duas entidades douradenses se movimentavam em torno do projeto Cidade Universitária, falava-se muito também na ligação de Dourados com o Porto de Paranaguá, por via férrea. Hehe, pensei eu: que tal um trenzinho de superfície do tipo das saudosas litorinas para conduzir os universitários?

Em relação à ideia da Cidade Educadora, foram formados em torno de cem comitês que apreciavam a ideia. Cheguei a elaborar um projeto, transformado em livro, no qual eu imaginei que no futuro não seria mais possível termos carros particulares para a nossa locomoção. Ora, era um sonho meio maluco, mas eu me lembrava de “Only a dream in Rio” de James Taylor e Milton Nascimento que dizia que “o lugar que a gente sonhar // pode existir, existirá // vive em nós e viverá”. Então eu disse que no futuro “ninguém mais tem uma garagem particular. Para locomover-se, o cidadão, a qualquer hora do dia ou da noite, acessa uma central que lhe envia o veículo apropriado para o tipo de transporte que desejar”.

Um absurdo! Tanto quanto o traçado de nossas largas avenidas, visão futurista dos pioneiros douradenses que, àquela época, usavam cavalos e carroças como meio de transporte. Absurdo tanto quanto o dos gaúchos, no início dos anos de 1970, acreditarem que as terras de campo podiam produzir soja. Ou absurdo também acreditar que Dourados poderia transformar-se em Cidade Universitária, Cidade Educadora, Centro de excelência no atendimento médico-hospitalar.

Mas Dourados se transformou. Os carros congestionam até mesmo as mais largas avenidas. Anos atrás, nem sei quantos, talvez dez, escrevi que o automóvel ainda se tornaria o inimigo número um do homem.

E não é que ao terminar a leitura de “Homo Deus: uma breve história do amanhã” de Yuval Noah Harari, me deparo com muitas ideias aparentemente também absurdas? Nem todas elas bateram com as minhas, aliás muito poucas delas, mas eis o que ele diz sobre o carro. “Eu tenho um carro particular, mas a maior parte do tempo ele fica ocioso no estacionamento. Num dia típico entro no meu carro às 8h04, dirijo por meia hora até a universidade e lá o estaciono. Às 11h11, retorno para o carro, dirijo meia hora de volta para casa, e é isso (...). Podemos criar um sistema inteligente de compartilhamento de carros operado por algoritmos computacionais. O computador saberia que eu preciso sair de casa às 8h04 e direcionaria o carro autônomo mais próximo para me pegar exatamente nesse horário (...).

Não é quase mágico pensar sobre o futuro? Particularmente, por dispor de um pouco de tempo para dedicar-me ao ócio criativo, fico imaginando como é que poderíamos caminhar celeremente rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais igual.

Hehe, a ambição de ter mais e mais seria substituída pela vontade de desenvolver um sistema social mais igualitário. A Justiça não se constituiria em uma casta e não julgaria pelo domínio do fato, por convicção e muito menos para proteger uns e condenar outros. Os deputados e senadores teriam direito a apenas dois mandatos. Os presidentes não venderiam o patrimônio de seu povo. As religiões não explorariam a credulidade dos fiéis. A paz venceria a guerra, o amor dissiparia o ódio.

Percebe o leitor que as minhas ideias podem ser iguaizinhas às suas?

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

A obra ora apresentada é uma coletânea de crônicas publicadas em diversos meios de comunicação no ano de 2010. Falam, sempre com elegância e fluidez, de nossas vidas, de acontecimentos e de possíveis eventos em nosso país, especialmente em nosso município.

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Crônicas: Educação, Cultura e Sociedade

O livro ora apresentado é um apanhado de 104 crônicas, algumas de 1978 e a maioria escrita a partir de 1995 até a presente data. O tema Educação compõe-se de 56 crônicas, outras 16 são relatos descrevendo fábulas ou estórias oriundas da cultura italiana, e os emas Cultura e Sociedade compreendem, cada um, 16 crônicas.

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Crônicas: globalização, neoliberalismo e política

Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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[2009] EDIFICANDO A NOSSA CIDADE EDUCADORA

Esse trabalho tem três objetivos principais, cada qual contemplado em uma das três partes do livro, como se verá adiante. O primeiro é oferecer ao leitor algumas reflexões sobre temas que ocupam o nosso dia-a-dia; o segundo é divulgar os vinte princípios das Cidades Educadoras e, finalmente o terceiro, é tornar público o projeto que nos orienta na transformação de Dourados em uma Cidade Educadora e mostrar os primeiros passos para a operacionalização desse projeto.

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[1998] Até aqui o Laquicho vai bem: os causos de Liberato Leite de Farias

Ao refletir sobre a importância do contador de causos/narrador para a preservação da cultura, percebe-se que cada vez menos pessoas sabem como contar/narrar, com a devida competência, as experiências do cotidiano. Por quê? Para Walter Benjamin, as ações motivadoras das experiências humanas são as mais baixas e aterradoras possíveis em tempos de barbárie; as nossas experiências acabam parecendo pequenas ou insignificantes diante da miséria e da fragmentação humana, numa constatação que extrapola os espaços nacionais.

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[1991] O MOVIMENTO REIVINDICATÓRIO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL: 1978 - 1988

Momentos de grandes mobilizações têm teito do professorado de Mato do Sul a vanguarda do movimento sindicalista deste Estado. Este fato motivou a realização deste trabalho, que teve como proposta inicial analisar criticamente o movimento reivindicatóno do magistério de Mato Grosso do Sul, na perspectiva de revelar-lhe, tanto quanto possível, o perlil de luta, ao longo de sua palpitante trajetória em busca de melhorias salariais, estabilidade empregatícia e melhoria da qualidade do ensino.

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