2018, indefinições e esperanças

Quando os anos envelhecem em dezembro, dizem que estão para morrer, mas os anos não morrem, apenas passam, deixando marcas, lembranças, história.

Em minhas crônicas de final de ano gosto de repetir o imortal Carlos Drummond de Andrade que, em sua genialidade, escreveu:

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano // foi um indivíduo genial // Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão // Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos // Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".

Não adianta dizermos que tudo será como dantes. O Universo se expande continuamente, a Terra gira em torno de seu próprio eixo a surpreendentes 1.700 quilômetros por hora e ao redor do Sol a 107.000 km por hora. E que dizer do Sol, que gira em redor de nossa galáxia a uma velocidade de um milhão de quilômetros por hora?

Parece inacreditável não sentirmos absolutamente nada desses movimentos interplanetários e, talvez, por isso, às vezes imaginamos que a passagem de um ano para outro não significa absolutamente nada em termos de mudanças.

Mas não somente em termos astronômicos é que as mudanças se realizam. Elas acontecem também no campo científico, tanto em relação às ciências exatas quanto às ciências humanas e sociais. E individualmente somos tentados a imaginar que a nossa rotina será igual, nossas preocupações as mesmas, mas não é bem assim. Ano que vem os ricos serão ainda mais ricos, os trabalhadores mais explorados, os pobres ainda mais pobres, não por vontade de Deus, mas pela ganância daqueles que rezam dizendo “venha a nós o vosso reino”, talvez imaginando ainda que o reino que pedem seja de mais lucro, mais dinheiro, mais poder.

Em minha crônica no final de 2016 eu constatava que “o golpe perpetrado contra a presidente Dilma, fez com que o país retrocedesse à política neoliberal dos tempos de FHC. Dilapidação do patrimônio público, desemprego, corte de programas sociais, corrupção, tudo o que parecia ser de responsabilidade de Dilma, avolumam-se no governo Temer”.

Que dizer de 2017? Tudo mudou em relação ao ano anterior, mas para pior. As privatizações se sucederam, o desemprego aumentou (índices de novembro passado são preocupantes), a corrupção se torna explícita (veja o caso das declarações de Marun), enfim, nada foi como dantes. E para 2018?

Se dermos crédito a Murphy, que em 1949 estabeleceu a lei que lhe empresta o nome, dizendo “se algo pode dar errado, dará”, teremos um ano ainda pior. Penso que 2018 se iniciará somente após 24 de janeiro, pois essa data significará a definição do futuro brasileiro. O mundo político e econômico somente se movimentará após a definição do TRE4 do Rio Grande do Sul sobre o recurso interposto por Lula em relação à sua condenação pelo juiz Sérgio Moro.

Atualmente existe uma parte da população desejando o banimento de Lula da vida política e até mesmo a sua prisão. Por outro lado, praticamente 50% dos brasileiros desejam ver Lula ser reconduzido à presidência. Temos um país dividido, a decisão de 24 de janeiro será histórica. A grande incógnita é a tal da “lawfare”, ou seja, a “guerra jurídica” que está se estabelecendo não somente no Brasil, mas em outros países sul americanos, onde a esquerda tenha algum poder ou chances de vir a tê-lo.

Creio que viverei ainda tempo suficiente para ter certeza de que esse movimento de “lawfare”, nasceu nos Estado Unidos, assim como o Conceito de Segurança Nacional, que impulsionou as ditaduras militares em vários países, inclusive no Brasil, e o Consenso de Washington, que instituiu o neoliberalismo. Em última análise penso que o “lawfare” esteja sendo estabelecido com os mesmos objetivos anteriores, qual seja, implementar o neoliberalismo e enfraquecer a soberania nacional dos países que ousam deixar de ser um quintal norte-americano.

Mas, se é verdade que as coisas nunca estão tão ruins que não possam piorar, também é verdadeiro que a esperança jamais deva morrer dentro de nós. Sejamos otimistas e, como diziam os meus antepassados, “salute e palanque a tutti e quantii” (saúde e prosperidade a todos e em quantidade).

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Livros

2010: O ANO QUE NÃO ACABOU PARA DOURADOS

A obra ora apresentada é uma coletânea de crônicas publicadas em diversos meios de comunicação no ano de 2010. Falam, sempre com elegância e fluidez, de nossas vidas, de acontecimentos e de possíveis eventos em nosso país, especialmente em nosso município.

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Crônicas: Educação, Cultura e Sociedade

O livro ora apresentado é um apanhado de 104 crônicas, algumas de 1978 e a maioria escrita a partir de 1995 até a presente data. O tema Educação compõe-se de 56 crônicas, outras 16 são relatos descrevendo fábulas ou estórias oriundas da cultura italiana, e os emas Cultura e Sociedade compreendem, cada um, 16 crônicas.

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Crônicas: globalização, neoliberalismo e política

Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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[2009] EDIFICANDO A NOSSA CIDADE EDUCADORA

Esse trabalho tem três objetivos principais, cada qual contemplado em uma das três partes do livro, como se verá adiante. O primeiro é oferecer ao leitor algumas reflexões sobre temas que ocupam o nosso dia-a-dia; o segundo é divulgar os vinte princípios das Cidades Educadoras e, finalmente o terceiro, é tornar público o projeto que nos orienta na transformação de Dourados em uma Cidade Educadora e mostrar os primeiros passos para a operacionalização desse projeto.

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[1998] Até aqui o Laquicho vai bem: os causos de Liberato Leite de Farias

Ao refletir sobre a importância do contador de causos/narrador para a preservação da cultura, percebe-se que cada vez menos pessoas sabem como contar/narrar, com a devida competência, as experiências do cotidiano. Por quê? Para Walter Benjamin, as ações motivadoras das experiências humanas são as mais baixas e aterradoras possíveis em tempos de barbárie; as nossas experiências acabam parecendo pequenas ou insignificantes diante da miséria e da fragmentação humana, numa constatação que extrapola os espaços nacionais.

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[1991] O MOVIMENTO REIVINDICATÓRIO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL: 1978 - 1988

Momentos de grandes mobilizações têm teito do professorado de Mato do Sul a vanguarda do movimento sindicalista deste Estado. Este fato motivou a realização deste trabalho, que teve como proposta inicial analisar criticamente o movimento reivindicatóno do magistério de Mato Grosso do Sul, na perspectiva de revelar-lhe, tanto quanto possível, o perlil de luta, ao longo de sua palpitante trajetória em busca de melhorias salariais, estabilidade empregatícia e melhoria da qualidade do ensino.

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