Doença como metáfora: o câncer de Lula

             

 Susan Sontag, escritora norte-americana, quando acometida de um câncer, enfrentou-o com tal coragem que chegou ao ponto de refletir sobre essa grave doença. De suas reflexões nasceu um livro intitulado “A doença como metáfora”.  No final dos anos de 1980 frequentei um curso de Ítalo Franco, na USP, sobre Doença e Imaginário, o qual tratava com especial atenção a questão do imaginário em torno da lepra, outra doença que, tal como o câncer, já causou muito temor. Com o livro de Sontag e o curso de Ítalo Franco aprendi algumas lições de vida, mas muito mais aprendi com o sofrimento de amigos e familiares que foram atingidos pelo câncer. Desse aprendizado que tive sinto-me apto a fazer algumas considerações sobre o câncer de Lula, não propriamente sobre a doença em si, mas sobre o que ela provocou de maldades.

Refiro à quantidade enorme de textos que circulam pela rede da Internet demonstrando satisfação pelo infortúnio do ex-presidente. Como se a sua doença fosse um castigo para punir o seu governo. A grande maioria dos textos conclama Lula a se tratar em um hospital do SUS.

Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de São Paulo, em recente matéria afirmou que sentiu “um misto de vergonha e enjôo ao receber centenas de comentários de leitores... sobre o câncer de Lula ... foi um enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano”.

O cidadão e, principalmente, o cidadão eleitor, pode gostar ou não de Lula, pode atribuir ao nosso ex-presidente inúmeras virtudes ou muitos defeitos pela sua postura como administrador público - fiquemos à vontade para fazermos os nossos juízos de valor -  no entanto, como afirmou Dimenstein “...não foi um ditador, manteve as regras democráticas e a economia crescendo, investiu como nunca no social”. (grifo meu)

Ao ter conhecimento de seu câncer Lula tomou a atitude mais digna que um homem público poderia tomar: não escondeu absolutamente nada e encarou a doença com coragem, como algo a ser vencido.

Os ataques a Lula leva-nos a deduzir que a rede (Internet) pode servir também como esgoto por onde circulam excrementos em forma de textos elaborados por seres corrompidos pelo o ódio, ignorância e insensatez.  Uma minoria, felizmente, mas mistificada provavelmente por uma ideologia que supera até mesmo a perversidade do modo de pensar capitalista.

Esses textos raivosos e desumanos fazem-me crer que ainda temos um longo caminho a percorrer para atingirmos um nível de civilidade superior. E esse nível de civilidade poderá encontrar um bom atalho se melhorarmos o nosso sistema de ensino e o nosso jornalismo. Sim, também e principalmente o jornalismo, por seu poder de formar opinião.

Bem, de minha parte, fico com o sábio conselho de minha avó de que não se deve desejar o mal nem para um cachorro. Ao invés de torcermos para que um jogador do outro time quebre a perna, desejemos apenas que erre o gol. Aos adversários políticos o máximo que podemos desejar de mal é a derrota nas urnas. Quanto ao câncer de homens públicos ou não, só podemos desejar a cura.

 

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Livros

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MEDIEVO PORTUGUES: O REI COMO FONTE DE JUSTIÇA NAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES

Nossa preocupação, nesse trabalho, foi a de estudar o comportamento dos reis, no que concerne à aplicação da Justiça, baseados nas crônicas de Fernão Lopes.

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Esta obra foi editada em 2011 pela Editora da UFGD e reune 99 crônicas escritas principalmente nos últimos quinze anos, versando sobre a globalização, o neoliberalismo e política

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